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Regen und Meer

Summary:

Desmoralizado depois de um longo dia de trabalho, Tobias liga para uma ex-namorada.

Work Text:

Tobias consegue ver as luzes cintilantes da cidade do lado de fora da janela.

Se ele prestasse bastante atenção, poderia ouvir o caos lá de fora. Os sons da vida, do amor e do coração partido que todos passam a vida enfrentando. Mas ele não quer ouvir nada.

Ele se senta no chão da sala de estar. Jules lhe ensinou isso, enquanto praticando o que dizia, que às vezes tudo o que precisava era ficar mais perto do chão. Às vezes ajudava.

Não estava funcionando hoje.

As costas dele estão encostadas no sofá. Uma perna esticada, a outra puxada para cima. Ele ainda está de roupa de trabalho, na maioria dele. O jaleco sumiu. Ele acha que talvez tenha pegado em alguma coisa e caído. Ele não se lembra de ter tirado.

Tobias vê o celular na mesa de centro. A tela acende, mas não há notificação. Apenas seu próprio reflexo por um momento. Atraído, mais velho do que deveria parecer.

Ele pega o telefone antes de se deitar. A madeira dura crava em sua coluna, afiada e proeminente. Ele não passa pelo nada. Abre e fecha mensagens. Deixa algumas sem enviar.

O médico se rola novamente. Pausa. Seu nome ainda está lá, e isso não mudou em nada. Jules parece que nunca se deu ao trabalho de bloquear ele. Ele, em uma rara demonstração de apreço, nunca se livrou do coração ao lado. Ele não sabe se isso melhora ou piora as coisas.

Ele pressiona. Não se permite pensar. Só... Aperta o botão.

O zumbido quase o desfaz. Tobias achou que talvez Jules não atendesse. Isso teria sido mais fácil. Isso seria justo. Mas então...

"Alô?"

Era aquela voz. Suave. Cautelosa. Não está brava. Só... Muito cansada.

Tobias quase se engasga com as palavras. Não fala nada no começo da ligação. Quando finalmente o faz, é um sussurro. Como se tivesse medo de que uma declaração descuidada pudesse destruir tudo.

"Sou eu."

Jules não responde imediatamente. Ele ouve um suspiro, talvez seu. Talvez não. Tobias não tem mais direito de saber.

"Eu... Eu sei que não deveria ter ligado." Sua voz falha. Ele tenta estabilizá-la. Não consegue. "Desculpa. Eu só... Eu não sabia o que mais fazer."

Ainda nada. Tobias passa a mão no rosto. Sente a dor no maxilar novamente. A pressão atrás dos olhos.

"Eu tentei evitar." Ele admite, a voz rouca. "Tentei não te ligar. Eu realmente não queria lhe perturbar."

Uma pausa.

"Mas eu continuava ouvindo sua voz. Na minha cabeça. E foi... E foi a única coisa que não doeu."

Tobias odeia o quão quieto soa. O quão pequeno. Mas ele não pode parar agora.

"Por favor." Um suspiro. "Você poderia vir aqui?"


Está tarde. Aquele tipo de madrugada que amolece a cidade, faz tudo parecer mais distante do que realmente é. Metade das luzes está apagada. Uma das janelas está entreaberta. Tem um hematoma nas costelas dele. Outro no queixo dele. Eles vão sumir até de manhã, mas por enquanto, ele deixa que doam.

Tobias respira. E então a porta se abre.

Silêncio. Jules andava pela sala como se ela estivesse tentando não o acordar. Como se ela não tivesse certeza se ele ia querer ela lá afinal.

Que tolice. Ele iria a querer em qualquer circunstância. Sempre. No fim do mundo que seja.

Ele olha para cima, cotovelos apoiados no chão. Já faz meses. Anos, talvez, dependendo de como se conta. Se usar as noites sem dormir e os olhos vermelhos do Tobias, poderia ter sido uma vida inteira.

Jules não diz nada, só coloca sua bolsa no chão. Ele observa suas mãos. O jeito que seus dedos se enrolam levemente na alça antes de soltar.

Então ele diz, bem baixinho, como se não confiasse no som, "Você veio."

Ela ainda está perto da porta. Ela poderia ir embora. Provavelmente não vai.

Ela responde, voz baixa. Desgastada. "Você me ligou."

Tobias pisca. Como se ele não acreditasse totalmente que Jules é real, que está em sua frente de verdade. Seu corpo se move como se quisesse ficar de pé, mas não o faz.

"Eu não pensei que você fosse querer vir." Ele diz.

"Quase que eu não venho, mesmo."

"Mas?"

"Mas eu ouvi sua voz." Ela pausa, dá de ombros. "Parece que você precisava de mim."

Algo dentro dele se quebra então, mas não em alto. Exatamente como um suspiro escapa de uma vez só. O jeito que ele pressiona a mão sobre os olhos.

Jules atravessa a sala. Ela não toca nele. Ela vai para a cozinha. Ela enche a chaleira. Suas mãos se movem como se tivessem feito isso cem vezes.

Ela faz chocolate quente. Ela se senta ao lado dele.

Jules não precisa falar ainda. Na verdade, não precisa falar em momento nenhum. O fato de ela realmente estar aqui já fala mais alto do que qualquer outra coisa.


O chocolate quente esfriou entre eles.

Jules está sentada perto o suficiente agora para que seus ombros se tocam. Não é tanto um toque, mas um peso compartilhado, como se talvez, se os dois se inclinarem um pouco mais, não caiam.

Tobias não fala há um tempo. Ela o deixou se sentar nela. Dessa vez, ele precisa escolher as palavras. Quando finalmente o faz, fica em silêncio. Mal respira.

"Eu tive um sonho."

Jules ainda não olha para Tobias. Apenas deixe as palavras se acomodarem entre eles.

"Você estava indo embora. Você não disse nada, você só... Saiu andando. Como se já tivesse sido decidido. Como se eu nem fizesse parte disso." Uma pausa. "Tentei te chamar. Mas eu não consegui dizer seu nome. Não conseguia se mexer. Só fiquei ali e assisti tudo acontecer."

Tobias solta o ar, longo e devagar, como se a memória ainda estivesse alojada em seus pulmões.

Então, ele diz baixinho, "Não é a primeira vez que tenho esse sonho."

Jules ainda não olha para ele. Ele continua.

"Eu ignorei, antes. Disse a mim mesma que não era nada. Só... Só fui lidando. Mas hoje..." Sua voz vacila. "Hoje foi diferente."

Jules finalmente olha para ele. Tobias não vê raiva nos seus olhos, nem mesmo irritação. Em vez disso, é algo parecido com afeto.

Ele continua. Ele olha para as próprias mãos como se tivessem traído.

"Eu estava respondendo a uma emergência, era um desabamento. Só um procedimento padrão. Eu vi um paciente tirado dos destroços, e ela meio que me lembrava..."

Ele para. Balança a cabeça.

"Não era você. Eu sei disso. Mas por um segundo, pensei..." Ele passa a mão no rosto, o maxilar tenso. "Eu só fiquei com medo. Não do prédio. Nunca de morrer. Esse nunca foi realmente o meu medo."

Finalmente, Tobias olha para Jules. E dessa vez, ela pega. Ele mantém seu olhar enquanto diz o que tem a lhe contar.

"Tenho medo de não saber. Se algo acontecer com você. Se precisar de mim. Tenho medo de estar em outro lugar, salvando outra pessoa, e..." Ele engole em seco. "E eu não vou estar presente para poder te ajudar."

Seu peito dói. Porque Jules conhece esse medo. Porque, de certa forma, foi isso que acabou com todos os relacionamentos que ela, e ele também, já teve. Eles sempre tentavam estar em todos os lugares. Para todos. E ela entende, e ele entende, o suficiente para nunca pedir para escolher, um paciente ou uma data comemorativa.

Mas houve noites em que ela precisou dele. Precisava muito dele. E ele não estava lá. E talvez não fosse culpa dele. Talvez não fosse culpa dela. Mas a dor permanece. Eles sabem disso.

"Sempre foi assim, não foi? Não que você não se importasse. Só que você não sabia como ser os dois." Ela diz suavemente.

Tobias não responde imediatamente. O silêncio dele é resposta suficiente.

"Eu devia ter pedido para você ficar. Naquela época. Eu devia ter dito algo."

A médica assente. "Eu teria ficado. Se você tivesse pedido."

O silêncio retorna, mas agora é diferente. Não é vazio. Não é amargurado. Mas sim cheio de tudo que nenhum dos dois disse, e tudo que ainda pode ser dito.

Então, ele diz, baixinho, "Não sei se consigo consertar."

"Não estou pedindo isso."

Jules se aproxima. Só o suficiente para seu joelho pressionar o dele. O gesto o castiga.

"Você ligou." Ela o lembra. Depois, um tipo de dar de ombros. "Eu vim."

Como se fosse uma conclusão inevitável. Como Jules sempre faria, não importava o que acontecesse.


Jules não diz que vai ficar. Ela não precisa.

Quando ela o segue pelo corredor, quando não hesita na porta, isso já é mais do que suficiente para Tobias perceber o que vai acontecer.

O quarto é igual. Ou seja, ainda falta alguma coisa para ela. Ele já viveu lá como um homem em um hotel. Lençóis lavados, cama arrumada, abajur consertado quando quebrou. Mas nada foi acrescentado. Nada mudou.

Ela desaparece no banheiro com uma camisa que ele esqueceu que ainda tinha. O som da porta se fechando é suave, suave demais para qualquer um além dele perceber. Mas isso corta seu peito.

Tobias se senta na beirada da cama e solta o ar nas mãos. Ele não sabe o que esperava naquela noite. Uma conversa. Uma briga. Talvez silêncio. Não isso. Não o peso de ter Jules no espaço dele de novo, quieto e firme como uma promessa.

A porta se abre. Ela volta. E por um segundo, ele não consegue olhar para sua convidada.

Ela está usando a camisa dele. Não uma das mais novas. Uma coisa velha, desbotada e macia de tantas lavagens. Ainda serve nela da mesma forma.

Jules se deita ao lado dele como se fosse a coisa mais natural do mundo. E foi, uma vez. Pode ser, de novo. Mas Tobias não conhece mais as regras. Não sabe como a alcançar sem pedir demais.

Então ele fica parado. Respira devagar. Espera.

"Antes era mais fácil." Ele diz. As palavras escapam antes que ele possa detê-las.

Ela não se mexe. "O que era mais fácil?"

"Dormir. Quando você estava aqui."

Jules não responde. Tobias se deita, de frente para o teto. As mãos dele ainda estão em cima dos cobertores. Imóvel e inútil. O silêncio entre eles se alonga. Não pesado. Não vazio. Só... cheio.

Ele quer a tocar. Não por fome. Só para se lembrar que ela é real.

Ele se mexe um pouco, só o suficiente para a mão repousar com a palma para cima no colchão entre eles. O homem não estica o braço, o deixa apenas disponível. Uma opção entre muitas.

Ela fica. E algo dentro dele se alivia.

Seus dedos encaixam do mesmo jeito. Ele não percebia o quanto lembrava daquela forma, quantas noites passou mapeando tudo na cabeça, tentando não esquecer.

Então, no escuro, Tobias fala. Ele não sabe por quê. Talvez porque Jules não está olhando para ele. Talvez porque ela esteja na cama dele de novo, uma memória tornada realidade.

"Acho que consigo fazer isso agora." Ele sussurra. A voz dele soa alta demais, mesmo que mal preencha o espaço entre os dois. "Acho que posso te segurar e cuidar do mundo."

Ele fala sério. Pela primeira vez, ele realmente sabe disso. Ela não responde. Ela não precisa responder. Ela aperta a mão dele.

E antes que ele possa impedir, antes que possa se envergonhar até ficar em silêncio, ele acrescenta, "Sinto tanta falta de você."

Sua voz falha na última palavra, trai o quanto ele realmente está triste.

Há um longo momento em que Tobias pensa que talvez não devesse ter dito aquilo. Talvez tenha sido demais. Talvez Jules se afaste.

Mas, em vez disso, ela se aproxima e solta um suspiro que nem sabia que estava prendendo desde o momento em que ela entrou.

Quando o sono vem, é suave.

Pela primeira vez em muito tempo, Tobias não resiste.