Chapter Text
Oh, thinking about our younger years
There was only you and me
We were young and wild and free
O sol ainda nem tinha atravessado completamente as cortinas quando Katsuki abriu os olhos, gemendo de sono. Ele cobre os olhos com o braço, tentando escapar da luz incomoda com um suspiro. Não adianta muito.
Não quando algo pesado se posiciona no lugar vago ao lado dele, cutucando-o no braço insistentemente até que ele o retire dos olhos. Ele os estreita com a luz, irritado, olhando para o lado em busca de quem o incomoda.
Izuku o encara com olhos enormes e brilhantes, um sorriso tão grande que chega a rasgar suas bochechas. Ele olha para Katsuki quase tremendo de alegria, praticamente pulando sobre o colchão.
“Kacchan!”
O menino pula sobre o amigo, abraçando-o com tanta força que Bakugou, ainda meio adormecido, ofega por ar. Ele empurra o outro garoto com força, mas Izuku permanece agarrado ao pescoço dele como um filhote de koala.
“Me solta!” Bakugou grita “Você está me sufocando!”
“Feliz aniversário, Kacchan!”
Bakugou rosna baixinho, um som que não assusta Izuku nem um pouco, acostumado demais com a aspereza do outro menino para realmente ter medo.
“Eu ouvi você! Não precisa gritar logo de manhã!”
Izuku ri, mas finalmente afrouxa o abraço, sentando ao lado dele na cama. As pernas pequenas balançam sem parar de tanta animação, encarando-o com uma espécie de encanto que incomoda Katsuki mais do que deveria.
“O que você está fazendo aqui?”
“A tia Mitsuki disse que eu podia ser o primeiro a te dar os parabéns!” Izuku diz, ainda alto demais, ainda irritante demais para o cérebro recém despertado de Katsuki, ele esfrega os olhos com irritação, embora o rosto ainda esteja amassado de sono.
“Você entrou no meu quarto sem permissão.”
“Porque é seu aniversário!”
“Isso não muda nada!”
Izuku só sorri mais largo, acostumado demais com os gritos para se assustar. Então ele estica os braços e pega alguma coisa escondida atrás das costas: um embrulho torto, cheio de fita adesiva mal colada e desenhos rabiscados.
Bakugou encara o pacote em silêncio.
“Fiz sozinho” Izuku diz rapidamente, quase tropeçando nas próprias palavras de tanta ansiedade “A mamãe ajudou só um pouquinho com a fita porque eu colei meus dedos sem querer, mas o desenho fui eu quem fiz!”
“Cala a boca” Katsuki interrompe o amigo, mas não há raiva de verdade em seu tom de voz. Ele pega o embrulho de forma rude, colocando-o sobre as pernas esticadas e observando os rabiscos vermelhos e laranja no papel.
Izuku observava cada movimento dele como se estivesse aguardando o resultado de uma prova importante e Katsuki se lembra brevemente de que ele sempre tira notas altas.
Pena que suas habilidades se limitem a escola.
“Você embrulha pior que uma criança de quatro anos.”
“Nós temos quatro anos.”
“Exatamente.”
O lábio inferior de Izuku se projeta para frente em um bico irritado e nada ameaçador. Katsuki tenta ignorar a sensação estranha que faz o estômago dele se revirar de uma forma estranha.
No fundo, ele fica um pouquinho feliz pelo esforço de Izuku de acordar cedo e ir até a casa dele apenas para parabeniza-lo. É sentimental e muito, muito bobo, mas ainda deixa Katsuki feliz.
Que idiota.
Mas, por algum motivo, Katsuki percebe que não consegue parar o pequeno sorriso que surge no canto da boca. Ele rasga o embrulho de forma desordenada, espalhando pedaços sobre a cama em uma bagunça que deixará Mitsuki irritada.
Dentro de uma pequena caixa, há um chaveiro pequeno e torto feito com massinha endurecida, cores manchadas e misturadas de uma forma estranha e desordenada que deixa o presente estranho. Katsuki estreita os olhos para tentar identificar a figura, demorando alguns segundos longos para ver que se trata do rosto de All Might.
É uma das coisas mais feias que Katsuki já viu em sua curta vida, feita por mãos pequenas e com clara pressa.
É terrível.
Mas Katsuki não consegue deixar de sentir uma sensação engraçada no peito com o presente, uma felicidade estranha que o faz apertar levemente o objeto com uma mão, testando sua resistência com cuidado. É estranhamente forte, resistente.
“Agradeça ao Izuku, Katsuki!” Mitsuki grita da porta, sua voz assustando os dois meninos a ponto de fazê-los pular na cama. Ela sorri, divertindo-se com a clara confusão do filho “Ele se esforçou muito para fazer isso.”
“Cala a boca, velhota! Eu sei disso!”
“Quem você está chamando de velhota? Seu-“ Mitsuki se interrompe, o punho erguido no ar diante do próprio rosto. Ela respira fundo, baixando a mão lentamente até que caia ao lado do corpo “Vou deixar essa passar, mas só hoje.”
Katsuki resmunga e cruza os braços, mas murmura um baixo “obrigado” que faz o sorriso nos lábios de Izuku aumentar até que Katsuki sinta dor nas bochechas apenas por encará-lo. Mitsuki então se aproxima e antes que Katsuki possa se arrastar para longe dela, a mulher o ergue com as mãos sob suas axilas.
Katsuki não tenta resistir, sabendo que será inútil tentar fugir dela nessa posição. A mulher ri de forma triunfante como se tivesse ganhado uma batalha e esfrega suas bochechas, o carinho fazendo Katsuki se contorcer em seus braços como um gatinho arisco.
Mitsuki o segura por minutos longos e torturantes, o carinho continuando até que Katsuki comece a empurrá-la com ambas as mãozinhas em seu rosto. A mulher suspira, um pouco decepcionada por ter durado tão pouco.
“Chega! Me solta!”
“Você era muito mais fofo quando não gritava comigo” Mitsuki responde, apertando ainda mais as bochechas dele antes de finalmente colocá-lo de volta sobre a cama.
Katsuki imediatamente se afasta dela, esfregando o rosto com irritação genuína enquanto Izuku ri baixinho ao lado dele, divertindo-se com a vergonha do amigo. As bochechas de Katsuki se inflam em uma clara demonstração de sua raiva.
“Não ria.”
“Mas você ficou vermelho, Kacchan!”
“Eu vou-“
“Katsuki! Linguagem!” Mitsuki grita sem qualquer esforço real para repreendê-lo.
Ela cruza os braços e observa os dois meninos na cama: Izuku sentado de pernas cruzadas, ainda sorrindo como se tivesse acabado de ganhar o melhor dia da vida dele, e Katsuki agarrando o chaveiro feio de All Might como se não tivesse percebido que ainda o segurava, irritado demais para se importar com isso.
O sorriso dela suaviza e ela se aproxima dos dois meninos, erguendo ambos em seus braços e compartilhando uma gargalhada com Izuku quando Katsuki resmunga. Ela não se importa, carregando-os pelo caminho até a cozinha com o coração dividido entre alegria e tristeza.
Alegria por ter seu filho vivo e feliz por mais um ano, saudável e sendo o mesmo garoto irritante de sempre. Tristeza por perceber que os meninos estão cada vez mais pesados a cada ano, crescendo rápido demais, deixando de ser as criancinhas adoráveis que ela adora e em breve se transformando em jovens teimosos.
Ela os abraça com um pouco mais de força, tentando memorizar a sensação de carregar essas duas crianças nos braços, tentando eternizá-la em seu corpo antes que eles fiquem pesados demais para serem carregados, antes que ela não tenha mais forças para isso.
Porque o tempo parece passar cada vez mais rápido, porque Katsuki e Izuku cresceram vários centímetros desde a ultima vez que ela os carregou.
“Bom dia!” Masaru os cumprimenta na entrada da cozinha com um avental colorido, um sorriso enorme nos lábios. Mitsuki o cumprimenta brevemente, Katsuki apenas resmunga ao ser passado para os braços do pai como uma bolsa, abraçado com força o bastante para arrancar o pouco ar que restou em seus pulmões “Feliz aniversário, Katsuki.”
Diferente do abraço rude e com carinhos dolorosos de Mitsuki, o abraço de Masaru se afrouxa até se tornar confortável. Katsuki não se contorce dessa vez, apertando o tecido do avental enquanto Masaru -de uma forma mais suave- esfrega suas bochechas como Mitsuki fez anteriormente.
Eles são assim. Mitsuki e Katsuki se provocam, mas o menino se deixará ser mimado pelo pai por um tempo limitado se isso deixa-lo feliz. Masaru é mais sensível que sua mãe e embora não diga em voz alta, essa é a forma de Katsuki demonstrar carinho pelo pai.
Isso dura pouco, no entanto.
“Me solta!”
“Foi bom enquanto durou” Masaru lamenta, colocando o menino em sua cadeira. Izuku senta alegremente ao lado do amigo irritado, batendo levemente na mesa com as mãos. Masaru bagunça levemente o cabelo macio do menino, arrancando uma risadinha.
Masaru se movimenta pela cozinha com calma, usando o avental amarelo cheio de desenhos de gatos que Mitsuki insiste em chamar de ridículo, mas que ele usa sempre. O cheiro de manteiga quente preenchia o ambiente inteiro enquanto ele se inclina levemente a frigideira, observando a massa dourar devagar.
Izuku acompanhava cada movimento em absoluto encantamento, apoiado de joelhos sobre a cadeira para conseguir enxergar melhor o fogão. Katsuki ergue a cabeça e seu nariz se enruga enquanto ele tenta identificar o cheiro. Seus olhos se arregalam e ao virar a cabeça, Masaru já está ao lado dele.
Com um prato enorme de panquecas.
O sorriso do homem se alarga ao ver os olhos do filho brilharem de alegria, animado e curioso com o café da manhã. Ele ainda lembra de como, semanas atrás, Katsuki praticamente implorou para experimentar panquecas ao vê-las em um filme com All Might.
Nenhum restaurante conseguiu imitá-las como Katsuki queria, então ele pensou que seria uma boa surpresa para seu aniversário.
Masaru apoia cuidadosamente o prato sobre a mesa, quase com orgulho, como se estivesse apresentando uma obra de arte importante demais para ser tratada sem cerimônia.
As panquecas estão empilhadas em uma torre alta e dourada, pequenas nuvens redondas cobertas por manteiga derretendo lentamente sobre o topo. A calda escorre pelas laterais em fios brilhantes e grossos, formando poças doces ao redor dos morangos cortados.
Por um segundo inteiro, Katsuki apenas encara o prato, piscando lentamente com a boca aberta em espanto silencioso. Izuku fica de pé ao lado dele, olhando para a enorme pilha com seus olhos verdes arregalados.
“Kacchan, olha o tamanho disso!”
“Eu estou vendo!” Katsuki rebate rápido demais, incapaz de esconder a surpresa na voz.
Masaru sorri ainda mais ao perceber a reação do filho.
Funcionou.
“Eu tentei fazer igual ao filme” Ele explica, ajeitando o prato um pouco mais perto de Katsuki “Mas acho que ficaram maiores.”
“Maiores?” Mitsuki repete, apoiando o cotovelo na mesa “Isso aí alimenta uma família inteira.”
“É aniversário dele.”
“Ele tem quatro anos, Masaru.”
“Quatro anos importantes.”
Izuku concorda imediatamente, balançando a cabeça com força.
“Muito importantes!”
Katsuki bufa, mas continua encarando as panquecas como se tivesse medo de que desaparecessem caso desviasse o olhar por muito tempo, porque elas realmente parecem iguais às do filme. Talvez até melhores.
O cheiro doce e amanteigado invade seu nariz outra vez, fazendo seu estômago roncar alto o bastante para que todos na cozinha escutem. Izuku ri, uma risadinha boba que consegue irritá-lo mais do que deveria.
“Cala a boca!”
As bochechas dele ficam avermelhadas imediatamente, irritado por ter sido traído pelo próprio corpo. Mitsuki gargalha sem qualquer piedade enquanto Masaru tenta esconder a risada atrás da mão.
“Bom…” Ele diz, pigarreando levemente “Acho que esse é o sinal para começarmos.”
Masaru pega cuidadosamente o garfo e a faca infantis, cortando um pequeno pedaço da pilha. A manteiga se mistura à calda enquanto ele separa a primeira mordida e assopra levemente antes de aproximá-la de Katsuki.
O menino imediatamente faz uma careta horrorizada.
“Eu consigo comer sozinho!”
“Eu sei” Masaru responde calmamente “Mas você também deixava eu te alimentar quando era menor.”
“Mas eu não sou menor!”
“Continua pequeno.”
“Katsuki é baixinho!” Izuku comenta sem pensar.
“Cala a boca!”
.
A noite chega devagar, quente e preguiçosa, enchendo a casa Bakugou com luz dourada e o som constante das vozes de duas crianças incapazes de ficar quietas por mais de cinco minutos.
A cozinha permanece uma bagunça depois do café da manhã. Mitsuki desistiu de reclamar quando percebeu que Katsuki e Izuku deixavam rastros por todos os lugares: migalhas no sofá, brinquedos espalhados pelo corredor e pequenos pedaços do embrulho rasgado ainda esquecidos no quarto. Masaru permanece calmo durante tudo isso, organizando parte da bagunça deixada após o almoço.
Izuku está sentado, Katsuki está ajoelhado sobre as almofadas do sofá como um comandante de guerra observando um campo de batalha.
Entre eles há dezenas de bonecos espalhados: heróis, vilões, monstros genéricos e um All Might claramente mais gasto que os outros de tanto uso. A cabana improvisada deles, feita de cobertores e travesseiros, é iluminada pela pequena entrada onde a luz fraca da televisão entra.
Katsuki pula no chão, caindo sobre a pilha de travesseiros com um bufo. Ele ainda está cheio após comer bolo, arrotando alto e arrancando uma risada de Izuku.
Pela janela, a chuva que se iniciou durante a tarde parece se intensificar conforme o tempo passa, com alguns trovoes fazendo os meninos pularem de susto. Katsuki detesta a chuva mais do que qualquer coisa, mas não pode fazer nada a respeito da tempestade lá fora.
A única coisa boa que a chuva trás é a oportunidade de Izuku passar a noite ali com ele, dormindo naquela cabana improvisada e nada confiável que pode cair sobre eles a qualquer momento.
“Tem certeza de que vão dormir ai?” Mitsuki pergunta, enxugando as mãos “A chuva não parece que vai parar tão cedo.”
“Aqui tem mais espaço” Katsuki responde prontamente, cobrindo-se com um cobertor grosso.
“Se você diz...” Mitsuki dá de ombros, bagunçando os cabelos rebeldes de Izuku com carinho “Sua mãe disse que você pode dormir tarde hoje.”
A permissão faz o sorriso de Izuku se alargar. Mitsuku belisca brevemente suas bochechas antes de se aproximar do filho, abraçando-o rapidamente e se afastando para ajudar Masaru antes de se retirar para o quarto.
A sala mergulha em um silêncio confortável assim que Mitsuki desaparece pelo corredor. O som da chuva preenchia os espaços vazios da casa agora, constante e pesado contra as janelas, misturado aos trovões ocasionais que faziam a televisão vibrar baixinho.
Izuku se deita de barriga para baixo e Katsuki o imita, aproximando-se da televisão.
Outro trovão ecoa do lado de fora e os ombros de Katsuki endurecem imediatamente. Izuku percebe na mesma hora, claro que percebe.
“Kacchan…”
“Cala a boca.”
“Você ficou assustado?”
“Não” Ele mente, orgulhoso demais para dizer a verdade para Izuku. Ele desvia brevemente o olhar.
Izuku estreita os olhos, claramente sem acreditar nem um pouco na resposta, mas ele não insiste, apenas apoia as mãos no queixo e volta a olhar para a televisão iluminando fracamente o interior da cabana improvisada.
A chuva continua forte do lado de fora, as gotas batiam contra as janelas quase no mesmo ritmo da abertura do filme passando na televisão.
Katsuki tenta ignorar o barulho e tenta ignorar também a sensação ruim que trovões sempre trazem. Então Izuku se mexe ao lado dele de repente.
“Kacchan.”
“O quê agora?”
“O controle.”
Katsuki franze a testa.
“O que tem?”
Izuku aponta para a pilha de fitas espalhadas perto da televisão antiga, claramente deixadas ali por Masaru antes de subir para o quarto. O aparelho deles é um pouco antigo, mas é bom o suficiente para que eles possam assistir algo sem precisar bater na televisão como Mitsuki faz as vezes.
De qualquer forma, Katsuki já se acostumou com o aparelho antigo.
“Vamos escolher outro filme.”
“Mas eu já coloquei esse.”
“Mas eu já vi esse!”
“Você vê tudo.”
“Não tudo.”
“Tudo.”
Izuku faz um bico irritado antes de se arrastar até a televisão, derrubando metade dos travesseiros no caminho. Katsuki observa em silêncio enquanto ele pega uma das caixas de fita e começa a ler os títulos lentamente, os lábios se movendo conforme tenta acompanhar as palavras.
“Tem… um filme de monstro…”
“Não.”
“Tem um do All Might!”
“Já vimos quinze vezes.”
Izuku continua mexendo nas fitas até parar abruptamente, os olhos verdes se arregalando.
“Oh.”
Katsuki ergue uma sobrancelha.
“O quê?”
Izuku vira lentamente a caixa para ele. Na capa, uma garota loira encara a câmera coberta de sangue e fica claro que é um filme antigo, provavelmente deixado ali por acidente por Masaru enquanto pegava alguns filmes para eles.
Katsuki sabe que seu pai jamais deixaria um filme de terror ao alcance dele, pelo menos não de propósito.
“Isso parece legal” Ele diz, pegando a fita das mãos de Izuku, movendo-a com cuidado.
“Parece assustador.”
“Você está com medo?”
“Não!”
“Então coloca.”
Izuku hesita, os dedos pequenos apertando a fita enquanto outro trovão ecoa do lado de fora da casa.
A televisão chia baixinho.
“Kacchan…”
“O quê?”
“E se for muito assustador?”
Katsuki imediatamente cruza os braços.
“Então você pode chorar.”
“Eu não vou chorar” Izuku diz teimosamente com um bico irritado nos lábios, olhando com raiva para o amigo. Katsuki sorri zombeteiramente.
“Chorão.”
Izuku infla as bochechas, indignado e ofendido com a provocação do amigo. Ele enfia a fita no aparelho com uma determinação que deixa Katsuki impressionado com sua teimosia, quase rindo da raiva do outro menino apenas porque Izuku é muito engraçado quando está com raiva.
“Eu consigo assistir!”
“Claro que consegue” Katsuki diz ao se aconchegar nos travesseiros mais uma vez. Izuku o imita com uma cara brava e muito engraçada “Mas você vai chorar, você sempre chora.”
Izuku abre a boca como se quisesse retrucar, mas nem um único som sai dali e ele apenas mostra a língua em uma demonstração infantil de sua raiva. Katsuki ri baixinho, decidindo ter misericórdia do amigo.
A luz azulada da televisão ilumina os rostos das crianças enquanto a chuva continua caindo forte lá fora. Izuku segura um cobertor sobre as pernas e Katsuki segura um travesseiro sem perceber. Nenhum dos dois comenta isso.
No começo, ambos tentam parecer corajosos e Katsuki permanece com os braços cruzados, fingindo desinteresse completo. Izuku permanece com os olhos arregalados, encarando a tela com tanta intensidade que os olhos dele doem.
Isso dura aproximadamente quinze minutos, então aparecem as primeiras cenas com sangue.
“Kacchan…”
“Hm?”
“Isso é ketchup?”
“Você é idiota?”
“Eu acho que é muito ketchup.”
Katsuki bufa, mas se aproxima alguns centímetros sem perceber. A chuva aumenta do lado de fora, outro trovão faz os pelos de Katsuki se arrepiarem como os de um gato arisco. Izuku dá um pequeno pulo ao lado dele, suas mãos apertando o cobertor com mais força.
Um grito ecoa pela pequena cabana quando a cena muda. Izuku automaticamente agarra o braço de Katsuki, assustado demais para se importar com a raiva do amigo teimoso.
Ele não percebe como Katsuki se inclina na direção dele.
Izuku só percebe o que fez quando a cena muda novamente e o silêncio volta para dentro da cabana improvisada. Os dedos pequenos ainda estão agarrados ao braço de Katsuki.
Ele solta Katsuki tão rápido que quase se desequilibra nos travesseiros. As bochechas ficam vermelhas imediatamente enquanto ele tenta se afastar alguns centímetros, claramente esperando um grito ou um empurrão.
Mas eles não vêm, os olhos de Katsuki permanecem fixos na televisão e seu corpo permanece inclinado na direção de Izuku em uma busca silenciosa de conforto. Ele está perto o suficiente para os ombros dele se encostarem levemente sob o cobertor torto da cabana.
O corpo de Katsuki enrijece quando outro trovão ecoa lá fora. Izuku percebe isso com os olhos arregalados, mas não diz nada para o amigo. Ele apenas puxa o cobertor um pouco mais para o lado, silenciosamente, até metade dele cair sobre as pernas de Katsuki também.
Na televisão, a música fica mais alta.
A tensão do filme cresce devagar enquanto a chuva continua batendo contra as janelas da casa. A cabana improvisada balança levemente sempre que o vento sopra mais forte e Izuku se aproxima mais um pouco durante outra cena assustadora.
Só um pouco, o suficiente para o joelho dele encostar no de Katsuki.
Katsuki não reclama, ele acaba se aproximando também quando outro trovão explode do lado de fora quase ao mesmo tempo que um susto acontece no filme.
Os dois meninos pulam de susto, batendo os ombros com um pouco de força e então se encaram com olhos arregalados e corações acelerados.
“Você assustou!”
“VOCÊ que se assustou!”
“Você gritou primeiro!”
“Não gritei!”
“Mentiroso!”
“Chorão!”
Izuku infla as bochechas outra vez, irritado, mas logo volta a olhar para a televisão. Alguns segundos depois, sem perceber, ele encosta a cabeça no ombro de Katsuki. O movimento é lento e em qualquer outro dia Katsuki o teria empurrado para longe, mas decide abrir uma exceção só dessa vez.
Izuku já parece completamente distraído pelo filme outra vez, abraçado ao cobertor enquanto murmura pequenas reações para cada cena.
“…Ela vai morrer.”
“Cala a boca, Deku.”
“Mas vai.”
Katsuki deveria empurrá-lo, deveria mandar Izuku parar de encostar nele como um filhote de cachorro carente, mas o calor que ele transmite é confortável e o distrai dos trovões do lado de fora.
Então ele apenas resmunga baixinho e afunda mais nos travesseiros, permitindo que Izuku continue ali.
Só dessa vez.
O filme termina em meio ao barulho da chuva e com os pés de Katsuki dormentes depois de ficar na mesma posição por muito tempo. A televisão chia baixinho conforme os créditos começam a subir lentamente pela tela, iluminando a cabana improvisada com aquela luz azulada e cansada. O som agudo do aparelho se mistura aos trovões mais distantes agora, a tempestade começando finalmente a enfraquecer do lado de fora.
Por alguns segundos, nenhum dos dois fala.
Izuku continua imóvel, abraçado ao cobertor até o nariz, os olhos enormes ainda grudados na televisão como se estivesse tentando processar tudo o que acabou de assistir. Katsuki mantém os braços cruzados.
Ou tenta.
Porque em algum momento do filme ele largou o travesseiro para agarrar discretamente a manga do próprio cobertor sempre que alguma cena assustadora aparecia.
“Então…” Izuku murmura baixinho “Ela matou todo mundo.”
“Eu vi.”
“Foi assustador.”
“Nem foi tanto.”
Izuku vira lentamente a cabeça na direção dele.
“Kacchan.”
“O quê?”
“Você quase morreu quando ela matou todo mundo.”
“Eu não!”
“Você pulou!”
“Porque o som estava alto!”
Izuku começa a rir imediatamente.
Uma risada cansada, abafada pelo cobertor, mas ainda assim sincera o bastante para irritar Katsuki.
“Cala a boca!”
“Você segurou meu braço.”
“Mentira!”
“Segurou sim!”
As bochechas de Katsuki ficam vermelhas na mesma hora ao perceber que sim, ele segurou o braço de Izuku por um ou dois segundos quando o filme ficou assustador demais. Mas Izuku não precisa dizer isso em voz alta.
“Você também ficou com medo.”
“Fiquei um pouquinho.”
“Covarde.”
“Você também!”
“Mas eu sou mais forte.”
Izuku revira os olhos pela primeira vez naquela noite.
“Você fala isso pra tudo.”
“Porque é verdade.”
Katsuki encara Izuku por dois segundos inteiros, esperando por mais, esperando continuar aquela discussão boba. Izuku apenas mostra a língua para ele.
Katsuki então ri.
Uma risada verdadeira dessa vez, alta o bastante para fazer Izuku arregalar os olhos em surpresa antes de rir junto também. Os dois praticamente caem um sobre o outro no meio dos travesseiros enquanto tentam recuperar o ar.
A cabana balança perigosamente outra vez, mas nenhum dos dois se importa, rindo até que suas barrigas doam e até que lágrimas se formem nos olhos de Midoriya.
Izuku esfrega um dos olhos com força, cansado depois de um dia inteiro correndo pela casa. O açúcar no sangue não faz mais efeito depois de tantas horas e a exaustão começa a atingir o garoto que já passou de sua hora de dormir.
Katsuki percebe imediatamente.
“Você está dormindo?”
“Não…”
Izuku boceja no meio da palavra, ele tenta continuar acordado mesmo assim. Os olhos verdes piscam lentamente enquanto ele encara a televisão vazia.
Katsuki testa sua teoria empurrando-o levemente com a mão. O garoto cai para o lado, aconchegando-se nos travesseiros com mais um longo bocejo. Katsuki observa o amigo praticamente afundar nos travesseiros com um suspiro, virando-se para o outro lado com um bocejo próprio.
“Não baba no meu cobertor” Katsuki resmunga, a voz baixando até sumir quando ele fecha os olhos, cansado.
Izuku murmura alguma coisa incompreensível em resposta, já mole de sono demais para discutir.
.
Katsuki acorda grogue, confuso ao ver o céu ainda escuro através da janela. A chuva está mais fraca agora, quase uma garoa com um ou outro trovão irritante fazendo-o franzir a testa.
Ele olha para o lado ao sentir uma pequena mão em seu braço e dá de cara com Izuku, muito acordado, encarando-o com seus olhos arregalados e cheios de lágrimas. O menino já funga alto, com as bochechas molhadas e o lábio inferior tremendo. Suas unhas afundam na pele de Katsuki de uma forma quase dolorosa.
“O que foi?”
“Posso dormir perto de você?” O menino pergunta, com a voz carregada de medo.
Katsuki encara Izuku por alguns segundos, ainda meio perdido entre o sono e a escuridão da sala. A televisão já desligou sozinha há algum tempo, deixando apenas o brilho fraco da rua atravessando as cortinas e iluminando pedaços da cabana improvisada.
Izuku parece miserável. Os cachos verdes estão bagunçados contra a testa úmida, os olhos enormes brilhando com lágrimas mal seguradas enquanto ele aperta o braço de Katsuki como se tivesse medo de ouvir um “não”.
Katsuki franze a testa imediatamente.
“Você chorou.”
“Não…” Izuku funga no meio da mentira, limpando o rosto rápido demais com a manga do pijama “Eu só tive um pesadelo.”
“Então chorou.”
“Não chorei!”
A voz dele falha no final da frase e isso praticamente entrega tudo, Katsuki revira os olhos com força.
“Você é muito bebê.”
Izuku abaixa a cabeça na mesma hora, claramente envergonhado. Os dedos afrouxam no braço de Katsuki como se estivesse prestes a se afastar.
“Desculpa…” Ele murmura baixinho “Eu posso voltar para o outro lado.”
Outro trovão ecoa do lado de fora, não tão alto quanto antes, mas o suficiente para fazer Katsuki se arrepiar imediatamente.
Izuku, como sempre, percebe. Os olhos verdes sobem devagar até o rosto dele, ainda marejados de sono e lágrimas.
“Kacchan…” Ele murmura “Você também ficou assustado?”
“Cala a boca.”
“Então nós dois estamos assustados.”
“Eu não estou assustado.”
Izuku apenas encara ele em silêncio e como Katsuki odeia aquele olhar. Porque Izuku sempre olha como se enxergasse coisas que ninguém mais percebe. Como se conseguisse ver através de toda a raiva e dos gritos e encontrasse coisas que Katsuki preferia esconder.
Outro trovão distante atravessa a casa.
Katsuki bufa alto antes que Izuku consiga abrir a boca de novo.
“Só vem logo.”
Izuku pisca.
“O quê?”
“Você queria dormir perto, não queria?” Katsuki rosna, puxando o cobertor com agressividade “Então anda logo antes que eu mude de ideia.”
O rosto de Izuku se ilumina tão rápido que chega a ser ridículo, quase como se Katsuki tivesse oferecido um de seus bonecos de edição limitada como presente para ele. Izuku praticamente tropeça nos próprios pés ao se aproximar, arrastando o cobertor atrás de si enquanto se enfia ao lado de Katsuki dentro do pequeno espaço entre os travesseiros.
A cabana inteira balança perigosamente com o movimento.
“Cuidado, idiota!” Katsuki sussurra alto “Vai derrubar tudo!”
“Desculpa!”
Izuku se ajeita rápido demais, ainda fungando um pouco enquanto tenta ocupar o menor espaço possível. Mesmo assim, os joelhos deles se encostam imediatamente sob o cobertor.
Katsuki sente o corpo dele tremendo levemente.
“Seu pesadelo foi tão assustador assim?” Ele pergunta antes de conseguir se impedir.
“A moça do filme apareceu.”
Katsuki arregala os olhos.
“…Você é muito idiota.”
“Ela estava no corredor!” Izuku insiste baixinho “E aí ela olhou pra mim e—”
“Era um sonho.”
“Mas parecia real.”
Katsuki resmunga alguma coisa incompreensível, virando de lado para encará-lo melhor no escuro. Izuku continua com metade do rosto escondida no cobertor, os olhos enormes ainda brilhando úmidos.
Outro trovão ecoa do lado de fora e Izuku se aproxima alguns centímetros sem perceber. Quanto mais próximo eles ficam, mais o corpo de Izuku relaxa.
“Você pode segurar meu braço?” Izuku pergunta tão baixinho que quase some sob o barulho da chuva.
Katsuki fica vermelho na mesma hora.
“O quê?!”
“Só até eu dormir…” Izuku murmura rapidamente “Porque você é forte.”
Katsuki consegue ouvir a própria respiração, consegue ouvir a chuva e consegue ouvir Izuku fungando baixinho enquanto espera por uma resposta.
Então ele bufa irritado e joga o braço na direção dele de forma bruta.
“Você é muito grudento.”
Izuku agarra o braço dele imediatamente. O menino se aconchega mais perto, abraçando o braço de Katsuki contra o peito enquanto finalmente fecha os olhos. O calor dele atravessa o tecido do pijama quase instantaneamente.
Katsuki tenta reclamar, tenta mesmo. Mas Izuku já parece meio adormecido outra vez, respirando lentamente enquanto segura sua manga com dedos pequenos e quentes.
“…Izuku.”
“Hm?”
“Você baba dormindo.”
“Você ronca.”
“Eu não ronco.”
“Ronca sim…”
A voz de Izuku vai ficando cada vez mais baixa até desaparecer completamente.
Katsuki permanece acordado por mais alguns minutos, encarando o teto torto da cabana improvisada enquanto a chuva enfraquece lá fora, Izuku aperta o braço dele até dormindo. É irritante a as unhas de Izuku sobre a pele dele coçam.
Mas quando outro trovão distante ecoa pela janela, Katsuki não se assusta tanto dessa vez.
“…Chorão.”
Izuku não responde, ele já está dormindo, roncando baixinho e babando sobre o travesseiro. Katsuki apenas suspira, aconchegando-se ao lado dele da melhor forma que pode.
Ele não acorda até a manhã seguinte.
